Fisiologia do futebol: o Pico de Velocidade de Crescimento no futebol de formação

No processo de maturação do organismo humano, um fenômeno fisiológico que tem grande impacto na performance esportiva de crianças e jovens é o Pico de Velocidade de Crescimento (PVC). Tal fenômeno se manifesta de diferentes formas e em momentos distintos conforme a individualidade biológica de cada indivíduo, determinando como ocorrerá o desenvolvimento físico e o aprendizado esportivo.

Nesse cenário, cabe a professores e treinadores, em escolinhas ou clubes de futebol, superar as dificuldades impostas pelo PVC à elaboração da melhor estratégia pedagógica e da organização mais adequada do treinamento dos jovens atletas. Portanto, no artigo de hoje vamos discutir como e porque isso ocorre, quais as implicações e ideias de estratégias para lidar com elas.

A Maturação

Primeiramente, para uma melhor compreensão do PVC, é fundamental entender o conceito de maturação biológica. Trata-se de um processo explicado pela fisiologia como o progresso do organismo em direção à maturidade, que compreende o seu crescimento em dimensões e o seu desenvolvimento funcional. Consiste em um fenômeno que, em condições normais, acontece com todo ser humano, porém, em cada um obedece às regras impostas pelas características biológicas particulares do indivíduo.

A Educação Física compreende isso à luz do princípio da individualidade biológica, um dos princípios fundamentais do treinamento, que determina que a intervenção do profissional deve levar em consideração as especificidades do organismo do aluno, para uma eventual necessidade de adaptação de exercícios ou a manipulação personalizada das variantes do treinamento para o melhor rendimento e evolução do aluno.

O Pico de Velocidade de Crescimento

Considerando essas informações, passemos à análise do Pico de Velocidade de Crescimento (PVC). Dentro da perspectiva da maturação, o PVC se encaixa como um fenômeno que ocorre em meninos e meninas a partir da pré-adolescência, onde é identificado, além de uma transformação sensível das suas características físicas, transformações no funcionamento do organismo como um todo (alta atividade hormonal), além de mudanças comportamentais e psíquicas de forma acelerada. Esses fatores remetem à puberdade, que representa a transição da pré-adolescência para a fase adulta.

No entanto, como mencionado anteriormente, a maturação e o PVC ocorrem conforme as regras do jogo impostas pelo organismo do indivíduo. Isso se traduz no tempo, ou melhor, no momento em que vai acontecer, que será diferente para cada jovem.

Devido a ele, é possível que um jovem de 13 anos apresente uma maturação física avançada comparada com a de outro de mesma idade, podendo, principalmente, aparentar ser mais velho. Na mesma lógica o inverso é possível, um jovem de 15 anos pode aparentar ser mais novo por possuir uma maturação mais lenta.

Isso significa dizer que os jovens passam pelo PVC em momentos diferentes, sendo possível classificá-los em três categorias conforme o estágio de maturação, de forma estimada:

1. Pré-púberes – quando ainda não passaram pelo PVC (geralmente antes dos 13 anos);
2. Púberes – quando estão no PVC (geralmente entre os 13 e 15 anos);
3. Pós-púberes – quando já passaram pelo PVC (geralmente após os 15 anos).

O problema no futebol de formação

Nesse contexto, para que o desenvolvimento esportivo e geral dos alunos e atletas não seja comprometido pela queima de etapas, é importante que o profissional responsável pela escolinha ou clube tenha um olhar sensível sobre essa questão e trace estratégias para superar as dificuldades. Para isso, é necessário ter conhecimento de métodos de avaliação da maturação, como a esquelética, sexual e a somática.

Sobre as duas primeiras não me aprofundarei pois impõem condições que estão fora da realidade de muitos clubes, escolinhas ou projetos sociais, mas a somática está diretamente relacionada ao PVC no que diz respeito à estatura e composição física dos jovens, características perceptíveis a olho nu e que não dependem do uso de técnicas mais rebuscadas para serem avaliadas.

Nas meninas o PVC se inicia mais cedo, por volta dos 9 anos, atingindo o máximo aos 11 e se estabilizando aos 13, mas nos meninos, o estirão de crescimento ocorre em momentos variados, e as características físicas da maturação somática se manifestam no estirão de crescimento entre os 10 e 18 anos, quando se estabiliza.  

Dessa forma, considerando o sistema de categorias, aquelas onde ocorre a maior incidência de casos relativos ao PVC, são, em geral, nas categorias Sub-13 e Sub-15.

Em minha experiência como professor auxiliar em escolinha de futebol, tem sido exatamente a essas categorias que tive que dedicar maior atenção, pois, uma vez que são as categorias com maior número de alunos, são as que apresentam maior variabilidade de estágios de maturação.

Enquanto na categoria Sub-13 existem jogadores cuja composição física os permite competir com jogadores do Sub-15, também existem aqueles que caso jogassem no Sub-11, sentiriam dificuldades. No Sub-15, por sua vez, existem jogadores que conseguem ter rendimento no Sub-17, outros, no entanto, tem muito mais dificuldades.

Sugestão de estratégia

Diante disso, uma forma de lidar com essa dificuldade é, em primeiro lugar, realizar um mapeamento das categorias, analisando em determinados jogadores indicadores de força, intensidade e rendimento nos treinos e jogos.

Esses jogadores ou alunos, devem ser aqueles cujo os indicadores, no contexto de competição, apontem risco à integridade dos colegas ou que apresentem baixa resposta aos estímulos aplicados, demonstrando pouca evolução em seu rendimento pelo tempo em que estiveram naquela categoria.  

Em segundo lugar, os alunos ou jogadores selecionados devem passar por um período de testes em categorias superiores, período durante o qual os professores ou treinadores devem avaliar o rendimento, notadamente, se houve evolução do indivíduo no novo contexto.

E, por último, o mesmo processo deve ser feito com aqueles que apresentam maturação tardia, porém, no sentido inverso, experimentando o contexto de categorias inferiores.

Referências

BACIL, Eliane Denise Araújo et al. Atividade física e maturação biológica: uma revisão sistemática. Revista Paulista de Pediatria, v. 33, n. 1, p. 114-121, 2015.

CARNEIRO, Emmanuel Alves; RIBEIRO, Kleber Augusto; SANTIAGO, Lívia Maria de Lima (org.). Metodologia do ensino do futebol. Autores: Fábio Moraes; Tane Kanope. 2. ed. Curitiba: CRV, 2023.

MALINA, Robert M.; BOUCHARD, Claude; BAR-OR, Oded. Growth, maturation, and physical activity. 2. ed. Champaign, IL: Human Kinetics, 2009.

MATTA, M. O. et al. Crescimento, maturação biológica e aptidão física e técnica de jovens futebolistas: uma revisão. Revista Brasileira de Futebol (The Brazilian Journal of Soccer Science), v. 6, n. 1, p. 85-99, 2014.


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